quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Zoé - 05/09/05 – 23h17

Mais próxima do chão posso colher minha idéia tão simples que nasce feito grama, feito ferida banhada nas águas do açude semi-seco. Por quem me tomas¿ seu pensamento não pode revelar os meus segredos.
Peço que me ouças, não pelas palavras, mas por outros sons.
Não tento me justificar, quero apenas me mostrar um pouquinho.
Que isto fique nas Memórias, esta eu só te empresto, te canto, diferente das outras tantas que não sei se reconheces o valor.
É a primeira vez que escrevo para alguém em minhas notas, e guarde para ti:
Jamais ei de querer desatar os nós que a fada inerte e triste teceu em seus tempos de glória. Se buscas por mim, também busco por ti, faminta, porém recôndida. E virá meu “boa noite” cheio de estrelas só para você. Eis que o chá me espera enquanto te espero.

Zoé - 17/07/05 – 2h32

Não dá pra entender porque algumas coisas acontecem. Questionar a origem de um sentimento é como os questionamentos das crianças, tão inimagináveis quanto possíveis.
Seria mais fácil explicar porque o céu é azul. Afinal, algum cientista com certeza falou da propagação de gases aliado a percepção de luz que os olhos enxergam: azul é o céu!
Não posso descrever algo que não sei de onde vem... boa época em que eu podia ser poetisa.
Quando digo que a melancolia é boa, é somente porque é mais fácil explicar.
O que os olhos vêem¿ bocas e seios, pelos e rosas.
E os narizes, o que sentem¿ aromas, perfumes variados, odores atraentes ou repulsivos, nostálgicos.
Ouvidos ouvem músicas especiais ou irrelevantes, tocantes ou tocadas.
Línguas lambem, diferem, confundem, regalam, propõem...
Mãos, rostos e pernas sentem todo o toque, roçam e pedem, sentem, se arrepiam, provam. Quem nunca provou um toque¿
Aliados estes sentidos formam uma imagem física.
E o que seria o sexto sentido senão a união dos outros cinco recebendo tempero e sendo misturados em um caldeirão com muitas coisas onde tudo se bagunça¿
Nas primeiras aulas de química aprendemos que um bolo é um composto homogêneo que não pode ser simplesmente fragmentado voltando ao estado original de seus ingredientes. Quanto a nós humanos é o mesmo, tentar fragmentar nossos seres não leva a nada.
O sentimento de que tudo está completo é aterrorizante, pode tornar-se cansativo.
O temor e a insanidade fazem parte deste sexto sentido que não ouso nomear.
É o fascínio de explorar, querer sentir minimamente as alterações ao seu redor.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Zoé Acire das Oliveiras – 22/07/2005 – 23:15h


Meu grande amigo,

Assim como a berinjela tem propriedades medicinais, conto a seguir um fato também sem explicação:
Nosso compromisso furtivo a tanto esperado acaba de colidir com iceberg chamado M...!
Preparei terreno, reguei as rosas, fiz o dever de casa na esperança de confiança e recebi em tom ameaçador a intimação de minha presença de volta ao tão querido lar.
Oh meu amor há tantas coisas...
É uma prisão semi-aberta, estou reclusa e meu traje de festa foi escondido!
Até quando? Até quando serei escrava das correntes invisíveis que prendem meu corpo a maldade da moral? Até quando devo temer e ansiar, rogar por uma fresta onde caiba um dedinho apenas, que possa sentir o que eu não posso conhecer.
Ai de mim, mal posso dizer qualquer coisa neste mundo, mas maldita a condição de certo e errado que abrange o mundo e alimenta de lá para cá!
Não brigues comigo querido, pois quando o dia amanhecer diremos bom d..., que saud..., sonhei com voc... É incompleto eu sei, mas quanto algumas coisas eu não posso desencadear desentendimentos.
Vamos ao passado fazer tudo diferente? Dar pontos nos cortes abertos? Ser crianças mais uma vez? Na inocência seria tão claro.
Que faço eu para que tenhas belas memórias? Para que não odeie minha condição de prisioneira dos medos sociais?
Cuida de mim?
Já não sei de me cuidar.
Das minhas fraquezas ainda farei fortalezas, mas agora não é hora. Diga apenas boa noite e espera a luz de fora se apagar para poder sorrir.
Obrigada pelo sal, sem ele minha salada teria cor, mas não sabor.

Zoé

Zoé Acire das Oliveiras – 20/07/2005

Uns dos sete pecados capitais
consegue invadir a alma dos
prisioneiros
Sangue nos olhos, dentes cerrados,
espinhos são cravados na pele,
carne, músculos, e ao chegar
nos ossos, produz uma faísca
que acende labaredas ardentes
na garganta.
Aí não há mais como escapar
A dominação do senso do sabor
desaparece.
Como vulcão em ebulição
tudo se resolve.
Milhares morrem queimados
castelos de pedras derretem
como torrões de açúcar
É aberto um perímetro de segurança
que não se pode avançar.
E o tempo passa, a calmaria volta
o fofo se abranda.
O solo atingido torna-se
especialmente fértil.
Vamos plantar cebolas!
Por enquanto ainda é seguro.

Gostei muito de ter visto sua reação hoje.
O impulso explosivo que te fez se revelar tão completamente, me fez acordar para o que realmente vai acontecer no “pós 27”.
Você tinha razão, nos momentos de emoção mais fortes a gente mostra muito do que ficou escondido, dormindo. É tão suave que me sinto até bem.
Cuide dos seus calos de relacionamento, com tratamento eles podem não sumir, mas vão parar de doer.
Boa noite por hoje

Zoé

*Fazer-me de vítima é minha especialidade*

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Roman Nosivied - 31/08/2005

Para Zoé a única.
Olá Amiguinha, há muito tempo eu não te escrevo, não por falta de tempo, mas por uma certa preguiça que me abate e mesmo com vontade de escrever eu não escrevo. Mas que importa o que significa isso?
Bem amiguinha eu não sei se você sabe, mas hoje nos vamos talvez ao MIS, ou talvez não, ou sei lá... O que realmente importa o que vale a pena mesmo é que nos vamos nos ver, nos beijar e sair de mãos dadas pela noite, seguindo o vento que beija o teu cabelo se orientando pela estrela que brilha nos teus olhos.
Sabe, ontem você me assustou com aquela conversa de morrer, e eu pensei no que faria se você morresse. Eu provavelmente teria dois caminhos, no primeiro eu entraria num mosteiro e nunca mais sairia de lá, dedicando o meu tempo somente ao sofrimento, a dor e também a contemplação religiosa. No segundo eu iria comprar um litro de 51, alguns limões e sal, subiria no prédio do Banespa ou algum outro edifício que fosse alto, tomaria o 51 como se fosse tequila, para descer mais fácil e depois que eu estivesse embriagado, pularia do prédio para se espatifar no chão, e se é que existe mesmo alguma alma que sobrevive a morte do corpo, eu iria tentar encontrar a sua, onde quer que ela estivesse.
Terrível não?
Tem uma passagem da Divina Comédia do Dante, em que ele está no inferno e encontra um casal adultero que rodopiam eternamente numa ventania e tentam em vão se abraçar, pois o vento os afastava e impedia que os amantes se encontrassem.
Amiguinha, eu acredito que o meu amor consegue vencer o tempo, o tédio e até morte, o monumental beijo de fogo é a prova incontestável disso, ele demonstra a característica absurda, atemporal e mística da totalidade andrógina.
Um super beijo (não o de fogo, pois ele foi único em nossa vida) bem no seu coração.
Roman

Zoé Acire das Oliveiras – 19/07/2005

Olá...
Ontem eu escrevi a primeira carta e mandei hoje pelo correio, talvez você saiba, mas se escrever a expressão “Carta social” no envelope, você paga R$ 0,01.
Hoje eu quebrei seu sigilo hidráulico, descobri que a ligação está no nome do seu inquilino e que em 2001 vocês reclamaram falta d´água, quase que receberam água do caminhão pipa.
Acho que amanhã vamos nos ver, achei estranho o papo de ontem, parece que você não queria falar comigo, conversamos tão pouquinho.
Conte-me sobre o seu dia.
Hoje eu deixei aflorar uma das minhas crises consumistas, comprei um monte de roupas que você provavelmente verá.
Ia dizer para você assistir ao filme que passou ontem na Tela Quente, mas me esqueci.
Este negócio de escrever cartas é muito estranho (acho que estou sendo meio repetitiva), durante o dia lembrei-me de... Sei lá!
Assisti a um filme em que um cara bem velho que não tinha o que fazer, apadrinhou um garotinho africano de nome “Undugu” e mandava junto as doações mensais uma cartinha contando sobre sua vida. Em várias cartas ele reclamou da esposa: como ela roncava, como escovava os dentes, comia, tudo o que ela fazia o deixava irritado. Até que um belo dia ela morreu e ele não sabia o que fazer, sentia falta dela.
Se não me engano ele tinha um trailer (é assim que se escreve?) mas não lembro do que acontece depois, nem lembro do nome do filme... Mas até que é legal.
Hoje a L... dirigiu até o Tucuruvi, para eu não ficar nervosa, fui lendo uma revista até chegar lá, até que ela foi bem!
O dia está muito frio, na verdade a noite está fria e muito escura, não se pode ver estrelas no céu, suas cores se confundem de acordo com a intensidade das nuvens, quase não existe brisa, levemente ela toca o bambuzal que silenciosamente move-se devagar. A vida selvagem (que tocante!) se revela, faz barulho.
Neste exato momento me bateu uma insegurança... Imagino que enquanto você lê, fica pensando: “Que chatice”, talvez nem chegue a ler o que escrevi agora...
Mas se ler, por favor, pergunte-me sobre o sapo que fica na minha porta, é só para saber se estou me tornando cansativa.
Bem amiguinho, como diria você, agora já chega não é?
Hora de falar por telefone.
Zoé

Roman Nosivied – 26/07/2005

São P... Ah, você sabe de onde eu falo!
Olá amiguinha, hoje é uma data curiosa, ou melhor, tenebrosa, hoje está fazendo nove anos que minha mãe morreu e também é hoje o nosso último dia de uma certa forma de relação.
Você está cansada de saber que eu sentirei saudade das nossas conversas por telefone que alegraram tanto as minhas noites e que eu sinto um cala frio terrível percorrendo todo o meu corpo só de pensar que você pode ir embora da minha vida para sempre, me deixando seco, murcho, sem cor e sem sabor, como quem perde o frescor, o viço, a beleza, o brilho e a alegria.
Agora são mais ou menos 02h10minh, eu vou arrumar a casa, tomar um banho, almoçar, colocar esta carta no correio, ir para o horto, passar na floricultura para perguntar a respeito de uma plantinha que dá uma flor chamada E... e depois ir para o Tucuruvi pois as 18:45h eu tenho um encontro lá na praça da subprefeitura com uma pessoa maravilhosa que é dona de todo o meu amor, advinha quem é?
Eu estou escutando nesse exato momento uma música que tem uma letra muito sugestiva, vou copiar um trecho:
“Nossa luz foi apagada
Quem sabe um dia a gente possa se entender
Se a poesia da paixão reacender”
Bonito não é, mas muito triste.
Bem amiguinha, por hoje chega, se algum dia você se lembrar de mim e quiser me ligar, me liga tá. Só não me avisa quando, ligue de repente, pois eu não estarei esperando.
Do maior louco, demente, desvairado, insano e maluco de amor por você...
Roman